31/10/2021

O que fazer com o medo de morrer?

É provável que iniciar este tipo de leitura, em um momento do qual todos temem a morte, seja um desafio; mais difícil ainda será ficar até o fim. Pensar, conversar e planejar sobre a morte são coisas que as pessoas da contemporaneidade no Ocidente possuem imensa dificuldade.

Você sabia que na Idade Média (século V até o século XV) arrastando um pouco para os séculos XVI e XVII, a morte era encarada como um ciclo normal da vida? A morte na Idade Média era pressentida, de modo que aquele que iria morrer ficava a frente de todo o ritual de sua morte. Aquele que não pressentisse a sua morte, teria a sua alma amaldiçoada. Nos dias de hoje, pressentir a morte é encarado como algo estranho e talvez delirante.

A única certeza que se tem na vida é a morte.

Aquela frase que muitos dizem: “a única certeza que eu tenho da minha é que vou morrer” é a verdade mais pura para a vida de todos, inclusive a sua, no entanto, ninguém quer saber ou falar sobre isso. Esta é uma daquelas verdades que incomoda e entristece muitos: talvez muitos nem clicaram neste título ou pararam no primeiro parágrafo com pensamentos do tipo: “que assunto mais pesado, vou ler isso para quê?” ou "eu estou vivo, muito bem, e obrigado". Perceba uma coisa: a cada batida do seu coração, a cada respiração dada é um passo mais perto para a morte.

Fique até o fim deste texto: destaco 4 processos que podem ser trabalhados e analisados por você e todos quanto à temática da morte.

Como lidar com a morte de quem se ama e ainda lidar com o medo de morrer?

Em diversas outras culturas, a morte é acolhida e respeitada. Do mesmo modo, que em outras, os profissionais da área da saúde farão de tudo para que você respire, mesmo que isto custe enfiar tubos por todo o seu corpo; diversas cirurgias são realizadas para manter os doentes vivos, mesmo que isso impeça que eles tenham a capacidade de falar e consequentemente de terem uma despedida digna dos seus familiares.

No México, os doentes acordam em suas casas até que a morte chegue, e uma festa ao redor do seu corpo é realizada. Depois do corpo ser banhado e cuidado, o levam até a Igreja finalizando o ciclo no Cemitério. Na Índia, os rituais dos hindus acontecem no pôr-do-sol, no dia em que a pessoa morre. A família se reúne para uma limpeza cerimonial do corpo, e o filho mais velho acende o fogo para a cremação. No Tibete, os budistas entregam o corpo aos pássaros e aos animais em última atitude de generosidade, demonstrando o respeito para tudo que vive já que a morte alimenta a vida.

A animação "Viva – A Vida é Uma Festa" é um ótimo filme para compreender a cultura do México (conte-me depois sobre a experiência).
Tibete: enterro celestial
Índia: cremação

Em alguns lugares do mundo, a reflexão sobre a morte e o morrer é viva. A consciência e aceitação deste ciclo é mais aberta ao ponto dos amigos e familiares participarem de todo o processo do morrer de um ente amado: além de participarem da última batida de coração e última respiração, eles banham os corpos e as roupas são escolhidas conforme o gosto do falecido, carregando-os até o cemitério e os enterrando. Ou seja, não há contratações de serviços funerários. O olhar para morte é de acolhimento.

Você, provavelmente, de alguma maneira, tentou ou tenta cuidar da sua saúde. Mesmo que exista a dificuldades com a tal disciplina, você tenta se cuidar. Tudo direciona você para isso: o bem-estar físico. Você já deve ter tentado alguma coisa para a sua alimentação, o seu corpo mas já parou para planejar sobre o seu futuro, e no meio desse planejamento, ter um espaço para a maneira como você pensa sobre a sua morte?

Como as pessoas morrem hoje?

Uma pessoa que possua o diagnóstico de uma doença terminal possivelmente participará de cirurgias, idas à emergências, vivenciará UTIs, tomará diversas medicações e visitará com frequência os especialistas sobre a sua condição, entre outros. A probabilidade de uma pessoa morrer em tubos e vivenciar momentos de solidão é muito alta, afinal, os Hospitais, por regra, solicitam horários de visita com limitações de quantidade de pessoas, o internado perde toda a sua privacidade, rotina e carinho, e etc.

O corpo é seu: reflita sobre o poder que se é dado aos outros.

Como vamos morrer de maneira respeitosa? Como vamos ensinar e reaprender o que significa viver dentro da nossa morte?

4 passos para você refletir sobre a morte e o morrer

  1. Pense sobre a morte.

Estudos mostram que pessoas que contemplam a sua mortalidade diariamente possuem menor humor depressivo, maior sucesso em atingir objetivos saudáveis e terem satisfação com as circunstâncias que envolvem a vida deles. As pesquisas mostram também que considerar a morte nos leva a maiores possibilidades de bondade e compaixão nos relacionamentos. Pensar em morte nos coloca em perspectivas sobre nossas prioridades em nosso trabalho, em nossas finanças, e relações pessoais. Quando pensamos na realidade da morte, nós apreciamos estar vivos.

2. Fale e escreva sobre a morte.

Se você quer morrer de maneira diferente, precisamos falar sobre o que queremos e o que não queremos. Planejamento avançado é basicamente falar sobre nossas opções e preferência para o fim da vida com nossas famílias e médicos. Como você tornará o fim da SUA vida de maneira mais gentil? Precisamos falar sobre isso antes que o tempo chegue com todos que podemos conversar e nós precisamos escrever sobre isso.

3. Vamos ensinar aos outros como morrer e como cuidar do nosso morto?

Quase em todos os lugares do mundo e ao longo da história da humanidade as pessoas morreram em suas casas. Foram cuidadas pela família e amigos, a morte era plenamente vivenciada. As pessoas sabiam como a aparência da morte era. Nem sempre era bonita ou em paz, mas não era algo terrivelmente desconhecido. Nós podemos ensinar às nossas crianças sobre como é morrer. Nós podemos ter menos medo e com mais possibilidade de compaixão, ter o luto e deixar ir.

O morrer e a morte poderiam ser um presente para os amigos pois eles estariam envolvidos em tudo relacionado a morte. Um passo importante para a demonstração de preocupação, ao invés de se sentir perdido e só. Nós podemos colocar a morte no círculo da vida.

4. Escolher na morte o que valorizamos na vida: que é a sua família, e todos os seres que habitam o planeta Terra!

Nós precisamos pensar seriamente sobre o impacto que a nossa prática funerária tem no meio ambiente. Ao contrário do que se acredita, a cremação polui e os projetos dos caixões precisam ser repensados. Produtos biodegradáveis devem ser introduzidos neste ciclo. São 7 bilhões de pessoas, com tendência para para duplicar, triplicar nas próximas décadas. A cremação, na verdade, requer uma grande quantidade de energia de combustível, resultando em emissões de carbono e mercúrio. Nós podemos essencialmente salvar a floresta por plantar a nós mesmos.

Imaginar a morte como um processo da vida deveria fazer parte do ciclo de todos.

Fernanda Rondon

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