24/02/2019

Depressão: tudo que você precisa saber

Quando a depressão bate à nossa porta (ou na porta de uma pessoa querida) somos acometidos por sintomas a serem considerados por todos que nos cercam. Tudo muda: relacionamento, trabalho, terapia, medicações, posicionamentos sobre a vida etc.

Se você possui o diagnóstico de depressão, fica comigo até o fim deste texto. Caso conheça outras pessoas em situação de depressão ou depressão profunda, compartilhe estas informações, elas podem ser úteis para quem está buscando ajuda com a depressão.

Depressão: uma vida resumida a sintomas e remédios?

Antes de elaborar este texto, recorri a diversos vídeos e sites com o objetivo de entender como outras pessoas falam sobre a depressão, visto que é um assunto muito extenso e delicado.

Fiquei incomodada ao perceber que a maioria das informações disponíveis aborda simplesmente os sintomas da depressão e, com extrema frequência, fecha com possíveis medicamentos e remédios para a depressão.

Convenhamos, você acha que é somente disso que se trata a vida de uma pessoa com depressão? Eu já te respondo de forma categórica: não.

A vida com depressão

Você tem uma vida e, a partir dela, toda uma série de relacionamentos, que vão desde o encontro das células do seu corpo (inevitável), até a sua interação com o externo (que por muitas vezes é evitada durante a depressão).

Quem está com depressão certamente enfrenta dificuldades em lidar não somente consigo mesmo mas com o outro. O que eu estou querendo dizer com isso? Você, que tem depressão mas precisa continuar desempenhando o papel de pai, de mãe, de filho...ou ainda você, que namora, que precisa trabalhar, mas que carrega o peso do diagnóstico nas costas. Como lida com os desafios de cada dia tendo depressão?

E como é para você, que não possui o diagnóstico, mas convive com uma pessoa em depressão?

Apesar dos inúmeros textos e conteúdo disponíveis na internet sobre a séria temática da depressão, faltam informações sobre as relações do depressivo com os outros e, mais ainda, da interação das pessoas que convivem com alguém em depressão.

Basicamente, a busca por apoio resulta em uma série de remédios, psiquiatras, vídeos com discursos infinitos sobre as CARACTERÍSTICAS da depressão, mas...onde fica a relação entre as pessoas em meio a isso tudo?

Depressão e relacionamentos

Quando vivemos a realidade de um depressivo ou quando somos o depressivo, o processo de interação com o outro muda quase que radicalmente.

Ao deitarmos na cama, após um dia intenso, estamos normalmente exaustos em decorrência do nosso dia ter sido turbulento, correto? A única coisa que você quer é dormir, não é mesmo? A pessoa com o diagnóstico depressivo vivencia essa sensação basicamente o dia inteiro, 24 horas. Portanto, para a pessoa se posicionar em qualquer área, é um esforço redobrado.

Não entendemos tanta gente nos cobrando mais energia, mais produção, mais interação. As pessoas não entendem o desequilíbrio hormonal do nosso corpo. Já você, que está com depressão, está em um processo de entendimento pois vivencia, na pele, os sintomas. No meio disso tudo como agradar a todos quando até mesmo a sensação de bem-estar escapou dos seus lábios?

Neste momento de depressão um dos primeiros passos é aprender a conversar com você, claro, mas é preciso educar aos que estão ao seu redor sobre a doença. Falar para quem me lê é algo difícil pois preciso generalizar os exemplos, afinal, todos são muitos, e por este motivo, é um grande desafio, para mim, caminhar em ruas desconhecidas.

Sobre a depressão e tipos de depressão

Mas eu vou, sim, falar um pouco sobre o que é a depressão e, acredite, serei sucinta no discurso.

Para falar realmente sobre a depressão seria importante conhecer você e sua história de vida atual, com muito envolvimento, sob pena de ser muito rasa em qualquer dado.

Ainda sim, vou falar de forma geral e resumida, sobre apenas três tipos de depressão (sim, existem inúmeros tipos): a depressão reativa, o episódio depressivo e o transtorno depressivo maior.

Depressão reativa

A depressão reativa, conforme o próprio nome, é a reação a algum fato em específico. Ela é reativa porque é uma reação sua a algo, como por exemplo: o fim do casamento, a perda de um familiar, a perda do emprego ou algum processo de luto.

A perda é uma das maiores dores no processo de aceitação, e por isto, a tristeza pode ser intensa e longa.

Episódio depressivo

O episódio depressivo acontece via uma mudança de comportamento da pessoa. A pessoa é acometida por sintomas que não fazem parte da sua realidade.

Você passa a interagir menos com as pessoas (trabalho, família, amigos), não sente tanta fome, o peito fica mais pesado, o que antes você via graça agora está nebuloso e sem sentido, seus pensamentos estão embaralhados e, se pudesse, não sairia da cama.

No entanto, você tem contas para pagar e, por isso, precisa sair da cama e encarar a luz do dia, estampar um sorriso (mesmo que mediano) e segurar o choro. Afinal, ninguém pode saber sobre o que está acontecendo, pois nem você se entende mais. Como se abrir sobre um vazio sem explicação?

Transtorno depressivo

O transtorno depressivo é quando ocorre uma longa duração do episódio depressivo. De acordo com alguns manuais psiquiátricos, é caracterizado quando se ultrapassa cerca de 6 meses nesse quadro.

Conforme mencionei anteriormente existem outros tipos de depressão, no entanto os sintomas são praticamente os mesmos, independente dos seus subtipos. O que muda são outras características, como sua duração e outros sinais que a acompanham.

Tristeza ou depressão?

Preciso ressaltar uma informação relevante sobre o que estamos conversando: a tristeza é diferente de depressão. De tanto falarmos sobre depressão, foi preciso inserir no DSM-V (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) a palavra “maior” em detrimento de todo o mal-entendido sobre a depressão. A palavra depressão caiu no uso comum de todos, sendo confundida erroneamente com a tristeza.

Portanto, vamos esclarecer aqui, e agora: tristeza é um estado psíquico, emocional, ligado à história de vida e a eventos desagradáveis na vida de uma pessoa. Para diferenciá-las é preciso estar atento aos sinais que se manifestam nas esferas psicológica, biológica, comportamental e afetiva.

Este vídeo exemplifica e muito a diferença:

Vídeo sobre a diferença entre depressão e tristeza

O que é a depressão e tratamentos para a depressão

A maioria das pessoas recorre a especialistas apenas muito tempo depois. Eu, particularmente, já tive a oportunidade de conversar com alguns psiquiatras e muitos dizem que a busca por eles ocorre no momento da depressão maior (alta intensidade combinada a uma longa duração).

Os psiquiatras normalmente indicam a terapia, muitas vezes combinada a algum tratamento medicamentoso para a depressão, mas alguns pacientes resistem e recorrem apenas aos medicamentos, e é aí que mora o perigo. Os medicamentos servem para aliviar, enquanto a terapia ajuda no processo da busca de reconhecer aquilo que não se enfrentou e/ou enfrenta. É como se o remédio para a depressão tratasse temporariamente, buscando aliviar os sintomas, enquanto a terapia de fato tenta te ajudar a se curar.

Nós, seres humanos, nos alegremos e nos entristecemos com muita facilidade em decorrência dos fatos aleatórios da vida, isso é natural. Porém, para algumas pessoas, as flutuações de certas emoções passam a interferir de forma significativa em seu cotidiano, devido à intensidade delas. Tendo consciência ou não da nossa depressão, nosso corpo começa a reagir negativamente conforme nossas tristezas se intensificam.

Descrevendo de maneira mais técnica: quimicamente os nossos neurotransmissores começam a falhar nas comunicações entre si, afetando os neurotransmissores responsáveis por hormônios como a serotonina e a endorfina, que dão a sensação de bem-estar.

Como consequência desse processo os sintomas da depressão começam a aparecer. Você consegue me entender? Você consegue compreender a força que a sua, a minha, a NOSSA mente tem e a importância que este pequeno grande órgão possui?

Quando você passa a ter depressão, há uma diminuição na quantidade de neurotransmissores liberados enquanto a necessidade dos receptores e as enzimas permanecem com força total, ou seja, seu corpo clama pelo bom funcionamento para permanecer trabalhando de forma alinhada. Com os neurônios receptores captando menos neurotransmissores e o sistema nervoso funcionando com menos neurotransmissores, imagina como o seu corpo fica?

Por que se recomenda que nestes casos as pessoas recorram a médicos psiquiatras? Porque ao tomar medicamentos a receptação dos neurotransmissores é inibida, garantindo assim um nível elevado dos mesmos na fenda sináptica, havendo uma reestrutura do humor, o que ajuda o paciente a garantir a sua saúde. Eu farei um texto de modo mais específico sobre o fator químico do nosso cérebro em outro momento.

Todos nós vivemos de rotina. Ainda que alguns não apreciem esta palavra, e julguem a ela uma conotação negativa, certamente na sua vida existem hábitos que precisam ser mantidos.

Se você é um adolescente, normalmente tem que ir à escola, estudar, arrumar o quarto, pertencer a algum grupo de amizades, namorar, viajar, ir a festas etc.

Se você é um adulto, provavelmente será ter que pagar contas. Estamos vivendo em um ciclo de crise no país (momento este que perdura já alguns anos), e muitas famílias sofreram o impacto econômico do país. Muitas famílias se separaram, saíram das suas casas, tiveram que tirar os filhos de certas atividades etc.

Mas existe uma curiosidade não muito agradável: a indústria farmacêutica no país foi uma das poucas que não sofreu esse impacto: por que será?

Se você é idoso, lidar com a aposentadoria não é algo fácil. Perde-se amigos próximos e o processo de elaboração do luto é muito mais doloroso. A sensação de solidão perante o mundo é difícil. Imagine você crescer ouvindo que para pertencer é preciso produzir. Então, você trabalha, investe na educação, cria uma família, monta uma casinha, e repentinamente, você se depara de frente para a televisão, com dificuldade até mesmo de se levantar e tomar um banho.

É cansativo e temeroso ler sobre realidades que podem estar conosco ou saber que existem pessoas ao nosso redor que amamos e que estão passando por certos níveis de depressão que não sabemos como ajudar. É necessário destacar, ao menos que rapidamente, que você não está sozinho neste processo.  Estima-se que essa doença, que é cercada de estigmas e preconceitos, atinja cerca de 30% da população brasileira. De cada três pessoas pelo menos uma teve, tem ou terá algum episódio depressivo durante a vida, segundo a Associação Mineira de Psiquiatria.

Precisamos nos sensibilizar para compreender este processo. É difícil, eu sei. Fomos treinados e educados a pensar em resultados, em conquistas. Não nos ensinaram a olhar para dentro. Não sabemos como nos abraçar. Não sabemos nos silenciar, não nos reconhecemos. Quando perguntam quem é você, qual é a sua primeira frase? Normalmente diz o seu nome e a sua profissão, não é mesmo? É assim que você realmente acha que é? Qual a sua essência? Perguntas difíceis.

Tomar medicamentos e fazer terapia é algo possível e recomendável (principalmente a terapia), mas você também pode escolher não recorrer a esses caminhos, mesmo que em casos de depressão grave. Outras pessoas resistem e recorrem a medidas mais banais, tais como praticar esportes ou simplesmente dizem “que é uma fase difícil, que vai passar”.

Querido leitor, querida leitora, a depressão não é algo que se pode controlar. A metáfora de "controlar" parece agradável pois sugere que quem "controla" tem poder. Você não consegue controlar a depressão, não existe a possibilidade de guardá-la em um baú e seguir com a vida. A depressão faz parte indistinguível do seu corpo e da sua mente. O melhor caminho para lidar com ela é através do acolhimento, e da busca por entendê-la. Você pode conversar com ela, fazer perguntas e conseguir respostas através do processo terapêutico e, se necessário, com a ajuda de medicações.

A depressão é o nome de um acontecimento complexo na sua mente que compreendemos somente através de metáforas. Não temos como descrevê-la em termos diferentes dos que você mesmo possa elaborar para falar da sua depressão. Falar dela e de tudo que pode explicá-la se faz na psicoterapia, no diálogo com um profissional.

Gostaria de propor um momento de reflexão: o texto terá um ponto final mas novas postagens surgirão, assim como novos questionamentos sobre o seu “eu” surgirão. Quem é você? Fala para mim, descreva-se, sinta-se (pode usar o campo de comentários desse blog caso deseje).

Dicas para depressivos

Aos depressivos, fica o meu pedido: cuide-se, não desista de si.

Busque por profissionais qualificados, que respeitarão o seu momento. Busque por profissionais que irão explicar a você passo a passo de como os remédios irão afetar seu corpo e mente e que delimitem o tempo de uso das medicações. Cada corpo possui uma reação e como consequência talvez será necessário que as dosagens destas medicações sejam modificadas ao longo dos encontros.

Atividades físicas são importantes, mas não esqueça de buscar um psicólogo. Existem profissionais que atendem por planos de saúde, outros particulares. Uma informação, que talvez possa ser relevante para quem não tem condição de bancar os citados anteriormente: todas as faculdades que possuem o curso de Psicologia oferecem espaços de atendimentos com valores extremamente simbólicos. Mais uma vez: não dê espaço para desculpas quando o assunto for a sua saúde mental.

A vontade de se isolar será grande, e não há problema nisso, é justamente neste processo de isolamento que serão elaborados os questionamentos da sua vida. Entretanto, fica mais um pedido: eduque seus amigos, familiares, namorados, colegas de trabalho. Não permita que seus amores se afastem.

Dicas para quem convive com alguém em depressão

Aos que conhecem uma pessoa depressiva, fica também o meu pedido:

Não adianta chamar a pessoa com o diagnóstico para passear, beber, viajar etc. O meu conselho é perguntar o que ela quer fazer e respeitar a sua decisão. É um desafio por muitas vezes doloroso vivenciar as dores do outro pois o sofrimento é agudo. São choros repentinos, dores fortes no peito, sensações de desmaio. Permita-se educar-se a respeito da depressão:

  1. Quando se está tomando medicações psiquiátricas não é permitido beber álcool. Não seja uma influência ruim.
  2. Respeite os “nãos”.
  3. Às vezes basta a sua presença, ainda que em silêncio, para a pessoa sentir-se bem.
  4. Por que não ir com a pessoa à terapia ou ao psiquiatra?
  5. Não pressione.
  6. Evite brigas em torno da doença.
  7. Eduque-se.

Quando a pessoa, independente do estado emocional dela, passa a dar menos atenção a gente, o que começamos a pensar? "Será que ela não me ama mais"?, ou ainda, "Será que tem outra pessoa na vida dela?".

Compreenda: amor não é sinônimo de atenção 24 horas. E, ainda por cima, quando uma pessoa está em depressão ela pode se isolar sim, mas nem por isso vai deixar de te amar.

Ela está em uma batalha interna de entendimento sobre os questionamentos da vida dela. É algo sobre ela somente, e não sobre você. Respeite isso.

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